Alguns dias se passaram desde a última escrita aqui. Confesso que pensei se devia apagar o que escrevi anteriormente, por conter elementos íntimos, pessoais demais. Depois pensei em criar um pseudônimo e abrir a goela. Bom, mais um vez, após coçar a orelha, vi que estaria escondendo aquela verruga que tanto me identifica e me faz ser a loba que sou. Pois aqui, então, estou. Eu: Renata Ávila Troca, loba da várias facetas e cabe a ti contabilizar quantas conhec(e)(ia) ou conhecerás.
Parei de escrever por ter ido a um território pessoal demais e fugido da obra em si, na última vez – não irei me desculpar, porque não sei se voltará a acontecer – porém, prometo que desta vez, falaremos sobre os contadores (e ouvidores) de história, assim como nos propõe Clarissa.
É a autora própria que me dá a resposta, quando envergonhada e sóbria, a encaro novamente. Diz-me ela, sorridente: “Cada uma e todas nós comprovarmos não só a existência da Mulher Selvagem, mas também a sua condição em termos coletivos. Somos a prova do inefável número feminino; nossa existência é paralela à dela.” (pág. 28)
Bom, espero que não sejam somente meus amigos que cheguem até essas linhas. E se é a você - desconhecido, estimado e querido visitante – que me refiro neste momento, é porque evidencio mais ainda a fala de Clarissa. Meus(minhas) amig@s podem vir até aqui por minha pessoa apenas e não pelo reconhecimento, identificação com a obra. Peço-lhes, agradecendo a atenção, que não sigam uma linha sequer, se nelas não encontraram um mínimo de si. Aqui, como em nossos encontros, não é um lugar onde seja a minha voz que prevaleça, mas tenha sempre a alteridade em vigor. Se você não está se identificando, se sentindo à vontade, com as patas mergulhadas em um longo e confortoso matagal, os olhos imersos no horizonte, e o nariz farejando algo muito delicioso, te peço, pela nossa amizade e respeito: me abandone aqui. Assuma-me Renata e não loba, isto é, a forma civilizada que encontramos de ser e estar.
Tchê, fugi de novo do tema: contação de história. Ana, minha desorientadora preferida, se estiveres lendo isso, por favor, ignore... vou colocar toda a culpa na loba (e ela tem cabelos lisos...rsrsrs)
Assim seguimos. Porém, preciso confessar aos estudantes de literatura deste país. Hoje em uma aula, com uma das mais respeitadas professoras em crítica literária brasileira, surgiu o assunto oralidade. Sabíamos, eu e outras duas ou três pessoas que compunham a mesa, do diferencial entre poética oral e literatura. Após a provocação da professora (contra a nossa interpretação) aguardei o posicionamento de minhas colegas, já que a cada vez que queria começar uma eloquência, era interrompida. A professora que já, em encontros atrás, havia percebido em mim, olhos não humanos, chamou a atenção que eu estava querendo me pronunciar e não me davam chance. Finalmente falei: - Professora, acho muito verdadeiro e interessante o que a senhora coloca, mas esse cara da vila que a senhora se refere possui uma poética e não Literatura. Expliquei após isso, o quanto a poética estava acima da Literatura, pra Zumthor, minha orientadora e para mim. Rsrs (nesta ordem) Fui contrariada por ela, e não esperava menos que isso. Não quis entrar no mérito “que tipo de literatura estás falando?” Para não correr o risco e arrumar uma inimizade antes da defesa da dissertação. Clarissa chega agora evidenciando e me dando mais forças para continuar defendendo essa bandeira. Disse-me ela:
“As histórias são bálsamos medicinais. Achei as histórias interessantes desde que ouvi pela minha primeira. Elas têm uma força! Não exigem nada, que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo – basta que prestemos atenção."(pág.30)
A escritora segue trazendo elementos tradicionais que “purificaram” a contação de histórias. Concordo com ela, quando refere-se aos irmãos Grimm e seus informantes (ou seja, os contadores de história). Suspeitamos todos nós que tenha havido um ‘encobrimento’ de antigos símbolos pagãos devido à crença religiosa dos irmãos e da sociedade em geral.
“De tal modo que uma velha curandeira num conto passava a ser uma bruxa perversa; um espírito transformava-se num anjo; um véu ou coifa iniciática tornava-se um lenço. (...) Os elementos sexuais eram omitidos. Animais e criaturas prestimosas eram transformados em demônios e espíritos do mal.
Foi assim que se perderam muitos dos contos femininos que continham instruções sobre o sexo, o amor, o dinheiro, o casamento, o parto, a morte e a transformação. Foi assim que foram arrasados e encobertos os mitos e contos de fadas que explicavam mistérios antiguíssimos das mulheres. (...) usando o estilo de contos de fadas, passo muito temo remexendo as cinzas com meu nariz. (pág. 31/2)
Percebemos que as formas e exemplos de como devemos aprender e apreender histórias também têm sofrido a mesma repressão moral que as mulheres na sociedade. Por quê? Ora, a contação de história é a forma mais antiga de ensinamento. Quase sempre em rodas aprendemos o que os mais velhos têm a nos dizer, mostrar, lembrar e guiar. É neste momento, em que estamos presos à alma e não mais ao corpo. E “quando trabalhamos a alma, ela, a Mulher Selvagem, vai se expandindo.” (pág. 32)
A grande parte dessas pessoas que contam histórias como forma de ensinamento, não tem instrução em termos acadêmicos, mas são de estrema sabedoria, sendo portadores de uma tradição valiosa e quase exclusivamente oral.
Aqui faço um pedido urgente. Quando encontrarem com um mendigo, catador de lixo, pedinte, andarilho, não se percam em suas vestimentas, odor, cabelo, pés ou mesmo as mãos. Olhem, se conseguirem, profundamente, para o seu olhar. O brilho que vocês verão, e que provavelmente causará lágrimas nos olhos de vocês, é o reflexo do tesouro que eles carregam. Suas histórias. Essas pessoas que não têm nada mais na vida capital, não têm um lar, sabem valorizar muito mais as histórias de vida do que todos nós, simples e asquerosos burgueses. Precisamos rever os conceitos urgentemente, para que nossos netos – senão, filhos – possam saber o que foi um dia justiça, igualdade e fraternidade.
“A natureza selvagem não exige que a mulher tenha uma cor determinada, uma instrução determinada, um estilo de vida ou classe econômica determinados. Na realidade, ela não consegue vicejar na atmosfera imposta do “politicamente correto”, ou quando é forçada a se amoldar a velhos paradigmas obsoletos. Ela viceja em visões novas e integridade individual. Ela viceja com sua própria natureza.” (pág. 37)
Chegamos ao final da introdução. Preparo-nos para começar a mergulhar na Generosidade da mulher selvagem: as histórias.
Quando lembro da loba, a visão que tenho é aquela americanizada nos filmes: a lua, um morro, ela e seu uivo. Descobri, chegando no primeiro capítulo, porque. Era o meu renascimento que eu via.
Quando lembro da loba, a visão que tenho é aquela americanizada nos filmes: a lua, um morro, ela e seu uivo. Descobri, chegando no primeiro capítulo, porque. Era o meu renascimento que eu via.



Olá Renata (que também significa Renascida), segui suas pegadas e encontrei em seus escritos um uivo muito singular de contadora e curandeira, pois assim como eu você também acredita nas histórias como bálsamo para a alma. Assim como as histórias precisam de contadores, também precisam de ouvintes e saber ouvir é uma arte. Exige silêncio interior e mente livre para acompanhar as palavras... Uivo contigo, aceita companhia?
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