quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Capítulo I - O Uivo: a ressurreição da mulher selvagem.


La loba, a Mulher-lobo.

Neste capítulo, Pinkola nos apresenta duas histórias que se cruzam pelo ar do deserto. A mulher-lobo e Os quatro rabinos vêm dialogar com o nosso instinto de preservação e busca, de nós mesmos. Deixo claro aqui, que não usarei “mulheres” apenas, pois acho que muitas das interpretações que a psicóloga traz cabem também (e principalmente) perfeitamente aos homens Afinal
penetramos numa história pela porta da escuta interior. A história falada toca no nervo auditivo, que atravessa a base do crânio até chegar ao bulbo do cérebro logo abaixo da ponte de Varólio. Ali, os impulsos auditivos são transmitidos para cima para o consciente ou, segundo dizem, para a alma... dependendo da atitude de quem ouve. (pág. 41)

É assim, que pedimos, Pinkola e eu, que vocês escutem com a alma agora, pois é essa a missão das histórias. (pág.42)

La loba
Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o Monte Alban num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, Mexico ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos, La trapera, a trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o viado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrilha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ea senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La loba anta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida, você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar co você e lhe ensinar algo – algo da alma. (pág. 43/4)

Com essa história, Clarissa nos faz pensar sobre a força e o valor dos ossos. Ela começa a sua análise afirmando: “Todos nós começamos como um feixe de ossos perdido em algum lugar do deserto, um esqueleto desmantelado que jaz debaixo da areia.” (pág. 44) Assim, penso, à primeira vista, em um corpo já morto e sem serventia. No entanto, não posso esquecer da matéria quase que indestrutível dos ossos. Podemos ser este esqueleto abandonado à sorte em muitas vezes na nossa vida, esquecidos até mesmo por nós, sua carne e sangue. Porém, o que a La Loba vem nos dizer é que devemos procurar exatamente este esqueleto abandonado, pois é ele a força indestrutível de nossa alma, que jaz perdido nas areias do deserto quente, cortante e vazio.
Já diz-se em ditado popular que cantar é o alimento da alma, Clarissa também concorda, e diz que “Cantar significa usar a voz da alma. Significa sussurrar a verdade do poder e da necessidade de cada um, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração.”(pág. 45) Quem é que não busca nem que seja um “lálála” nos momentos de mais aflição e nervosismo? Precisamos ainda ser cientes que este algo doente não pode ser outra coisa que nós mesmos. Somente nós somos capazes de nos curar.
Não podemos cometer o erro de tentar extrair esse imenso sentimento de amor de algum ser amado, pois essa função feminina de descobrir e cantar o hino da criação é um trabalho solitário, um trabalho realizado no deserto da psique. (pág.45)

            Quando li que podia soprar alma sobre aquilo que está doente, pensei em quantos amigos poderia ajudar. Porém, Pinkola mais uma vez chicoteia minhas costas me mostrando o quanto tenho falta de costelas. Preciso recuperar primeiro o meu esqueleto, enfrentar a secura do deserto, suas miragens, ilusões, solidão. Preciso estar no mais puro de mim, para enfim encontrar com as partes de um eu indestrutível que perdi. Quem sabe depois de ossos, lobo e uma mulher correndo feliz pelo deserto. Em direção ao meu horizonte, eu possa mostrar àqueles amigos – que se forem verdadeiros, sempre estarão no caminho de meu horizonte - que é possível recuperar essa força, é possível de ossos transformar-se em sorrisos.
La Loba conhece o passado pessoal e o passado remoto pois ela vem sobrevivendo pelas gerações afora e é mais velha do que o tempo. Ela é a memória arquivada das intenções femininas. Ela preserva a tradição feminina. Seus bigodes pressentem o futuro; ela tem o olho opaco e sagaz da velha; ela viaja simultaneamente para frente e para traz no tempo, equilibrando um lado com a dança que realiza com o outro. (pág. 46)

Talvez seja nesse meio dos passados que encontramos o nosso presente, ou ainda o esqueleto transformando-se em lobo. Já que “La loba, ou Aquela que sabe, está dentro de nós. Ela viceja na mais profunda alma-psique das mulheres, a antiga e vital Mulher Selvagem.” (pág.46)
O encontro dos espíritos da mulher e do lobo só pode acontecer dentro da casa de La Loba, pois é lá o refúgio dos que não pertencem a nada, dos que não tem a identificação com o tempo e espaço que ocupam. E “essa velha está entre os universos da racionalidade e do mito. Ela é a articulação com a qual esses dois mundos giram.” (pág. 46)
Nessa semana foi o aniversário de meu pai, e questionei minhas familiares se estavam me lendo aqui. Tive duas respostas que me fizeram pensar: Minha irmã: -  Nem sempre o que é interessante pra ti, será pra mim. Minha tia: - Eu achei que era aquelas tuas coisas da faculdade e não ler. Demorei pra entender que esse tempo-espaço é dividido por pessoas extremamente diferentes que conseguem se entender. Não conseguia entender porquê alguém não se interessaria por este livro, hoje recorro a uma justificativa que eu mesma me dou: eu não procuro os livros, são eles que me acham. É assim, talvez a mulher selvagem que habita em mim esteja correndo em direção ao horizonte, enquanto outras já estão muito mais a minha frente e ainda outras estão perdidas em forma de osso no meio do deserto. O tempo e espaço não são os mesmos, apenas o estar-se juntas.
No entanto, uma coisa é certa: cada mulher tem acesso potencial a este “não-espaço”
Ela chega até ele através da meditação profunda, da dança, da arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, da imaginação ativa ou de qualquer atividade que exija uma intensa alteração da consciência. Uma mulher chega a esse mundo-entre-mundos através dos anseios e da busca de algo que ela vê apenas com o cantinho dos olhos. Ela chega lá com artes profundamente criativas, através da solidão intencional.(pág.48)

Desculpe, então, minha amiga, Irmã, tia. Pode ser que ainda não tenham chegado, mas o deserto está na sua frente. La Loba espera-lhes, com o canto de libertação. 

 

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