segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Introdução

Chegamos na introdução “Cantando sobre os ossos”. E gostaria de começar pelo seu final. Clarissa expõe no último parágrafo deste longo texto introdutório: “Para nós a questão é simples. Sem nós, a Mulher Selvagem morre. Sem a Mulher Selvagem, nós morremos. Para a verdadeira vida, ambas têm de existir.” (pág. 38) Escolhi começar por essa afirmação, para que não haja dúvida se esse livro pode ou não ser útil a você que me lê agora. Na verdade, você já tem essa resposta, senão, não chegaria até aqui, não é mesmo? Mas a intenção primeira dessa afirmação é estimar que o livro não é feminista, e sim feminino. Isso quer dizer que ele também é destinado a todos os homens que aceitam o arquétipo da Mulher Selvagem. Por isso, sejamos todos muito bem-vindos a esta matilha que agora começa a se desenhar.
Digo que o livro é destinado somente aos homens que aceitam a Mulher Selvagem, porque há muito ela tem sido banida da natureza. Conforme afirma Pinkola “As terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros.” (pág. 15) E o mais impressionante é que o predador desta Loba tem sexo feminino e é também o seu abrigo. Isso mesmo, você que estava com a baba na beiradinha da boca, remoendo a raiva da submissão feminina perante o machismo, pode engoli-la. Se nos tornamos mulheres domadas e sem esperanças de uivar a culpa é toda e somente nossa. Nós nos permitimos e aceitamos ser domesticadas. Quem nos obrigou a sermos silenciosas e quase pasmas (se não totalmente) foi a maldita civilização, uma vez que  os “lobos, e coiotes, os ursos e mulheres rebeldes [têm] reputação semelhantes.Todos eles compartilham arquétipos instintivos que se relacionam entre si e, por isso, têm a reputação equivocada de serem cruéis, inatamente perigosos, além de vorazes. “ (pág. 15) Aprendemos que eles são cruéis, porque não podemos o ser, e se formos livres como eles, estaremos também sendo cruéis. Agora, me diga, quem nos ensinou isso? Nossa mãe, avó, tia, professora? Dificilmente, esse tipo de ensinamento é passado por um homem.
No entanto, o que acontece é que somos comparadas sim, mas aos lobos saudáveis. Conforme a autora:

Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada (   ), espírito brincalhão (   ) e uma elevada capacidade para a devoção (   ). Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força (   ). São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha (   ). Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação (   ). Têm uma determinação feroz e extrema coragem (...) (pág. 16)

Os parênteses no meio da citação não significam espaços cortados e sim espaços para serem preenchidos com o ♀ a cada identificação. Também tornam-se semelhantes na perseguição da atividade predatória aqueles que não os compreendem.
Clarissa, após relacionar lobos e mulheres, apresenta a sua história, apaixonando-nos ao dizer que “Ali, os trovões e relâmpagos eram meu principal alimento.” (pág.16) Diga-me, car@ leitor@, o que esperar deste tipo de autora, senão uma leitura eletrizante? Talvez tenha sido, ela, uma dessas gurias que uma ou duas (ou quem sabe quinze ou cinquenta e duas) vezes conseguiu fugir da coleira e por isso era considerada “errada” por aquelas certinhas que viviam limitadas em cintas.
Ainda falando de suas experiências, a autora nos diz que: subindo em árvores, descobriu o que seria o sexo um dia. Meus caros, digo-lhes agora que a descoberta sexual não esteve vinculada ao elemento fálico da árvore, nem ao chegar a seu “topo”, mas sim ao se permitir subir na árvore, ao se permitir decifrar o enigmático e perigoso, sem ser, totalmente, proibido. Um exemplo pessoal; descobri o que seria ser mulher, depois de anos de sexo, quando guiando uma moto, tive uma relação sexual. Isso mesmo, com a moto em movimento, comigo no controle, com a minha autorização e provocação, fiz com que meu parceiro, carona, me penetrasse e gozasse ali a sua subordinação machista (sim, ele é machista/ e não mais meu parceiro – ainda bem) perante o meu gozo e controle.
Talvez ali não tenha sido descoberto o que é ser mulher apenas, mas ser mulher e selvagem. Pois “essas exatas palavras (...) criam (...) a batida dos contos de fada à porta da psique profunda da mulher. [enfim] O arquétipo da Mulher Selvagem envolve o ser alfa matrimilear. (pág.19)
Talvez você esteja repensando quando a viu pela última vez. Onde largou a sua mulher selvagem? Ela ainda vive? Se sim, aonde se esconde? Fique tranqüilo “E quando farejamos o seu rastro, é natural que corramos muito para alcançá-la, que nos livremos da mesa de trabalho, dos relacionamentos, que esvaziemos nossas mente, viremos uma nova página, insistamos numa ruptura, desobedeçamos as regras, paremos o mundo, porque não vamos prosseguir sem ela. (...) [Afinal] elas sabem instintivamente quando as coisas devem morrer e devem viver; elas sabem como ir embora e como ficar.(pág. 20/1). Não se entusiasme, guria. Ela é “uma megera-criadora, uma deusa da morte (...) amiga e mãe de todas as que se perderam, de todas as que precisa aprender, de todas as que têm um enigma para resolver, e todas as que estão lá fora na floresta ou no deserto, vagando e procurando.(pág.22).
Ufa, medo? Receio? A fim de encontrar ume megera? Se achar que ainda não é a hora, não se preocupe, pois “por mais que ela seja humilhada, ela sempre volta à posição natural. Por mais que seja proibida, silenciada, podada, enfraquecida, torturada, rotulada de perigosa, louca e de outros depreciativos, ela volta à superfície das mulheres, de tal modo que mesmo a mulher mais tranqüila, mais contida, guarda um canto secreto para a Mulher Selvagem. (pág. 23/4).
(Aqui, abro um parênteses, para novamente falar de mim e minhas experiências. Lembro da primeira vez que minha irmã desafiou o marido, e o quanto ela se sentiu mulher depois disso; de minha tia que esconde(?) um relacionamento duplo de seu marido, de mim que aceitei ser “traída” pelo meu primeiro namorado, por mais de quatro anos, por achar que jamais “conseguiria” outro namorado. Lembro de amigas tão lindas e que só conseguiam ver a feiúra no espelho. Comecei a me ver diferente delas, ou seja, a me refletir uma pessoa, quando parei de olhar para a barriga e mirar meu sorriso, meu olhar. Devo agradecer, eu Fiona, à amiga Barbie que muito tem me ensinado neste mundo de “mulherzinha”. Rsrs) Procurei sempre, em diferentes momentos, me esconder “exageradamente, na domesticidade (sei fazer invejáveis trabalhos em ponto-cruz), no intelectualismo (este blog é um exemplo disso), no trabalho ou na inércia (já tive os dois, também) porque é esse o lugar mais seguro para quem perdeu os próprios instintos.” (pág. 25).
Confesso que hoje, escutando músicas variadas, desde Elis Regina, Solace, Bicho de pé, Obreiros de orixá, bebido também cervejas variadas (Skol, Bhrama, Polar (se você não mora no Rio Grande do Sul, não poderá saber o quanto boa ela é), discutido ações e intenções femininas (e masculinas), sinto-me repleta de hibridismo. Já não me pertenço, não sei de que caminho vim, e nem o qual vou seguir. Sei que hoje estou caminhando em passo firme e que carrego comigo um sorriso, porém, esse olhar confiante só existe porque diante de mim, vejo pegadas de uma velha loba que reconheço pelo uivo.
Afinal essa loba “estimula os humanos a continuarem a ser multilíngües: fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia. Ela sussurra em sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas, esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la. (pág. 27)

                            
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Quero que vocês pressintam nesses pontos que se passaram uma pausa, um suspiro, um repensar. O que estou escrevendo? Já não sei! Dei-me conta disso, porque cheguei a parte da introdução em que Clarissa fala de ouvir histórias. Aqui mais uma confissão. Já conhecia o livro, antes de decidir escrever sobre ele. O obtive alguns meses (ou anos) atrás e o perdi num ônibus. Um dia acordei sem ar, querendo ver verde, gritos animalescos, selvagens, correr, correr e não ter um fim, um alvo a chegar. Lembrei da loba que mora em mim. Felizmente, ela é muito mais econômica que eu, e pesquisando no Estante Virtual (se não conheces, conheça-o já – www.estantevirtual.com.br – encontrei-o perto de minha casa com mais de 60% de desconto do preço original.) nos reencontramos, enfim. Prometi-a que jamais a deixarei ir tão facilmente, de novo. Porém, tenho minhas dúvidas, até que ponto ela não pulou da janela daquele ônibus, naquela noite, por me ver civilizada e sociável demais?
Estou em um momento de intensa fragilidade e fortalecimento. Coisas estranhas acontecem todos os dias, semanas, meses. E o mais incrível. Tudo tem explicação, quando eu quero encontrá-la. Hoje, acho que não tenho a razão de meus senti(pensa)mentos porque quem me comanda tem quatro patas. Um outro exemplo traumático para que você perceba que isso aconteça com todos, não só contigo.
Há sete anos (ou mais, já perdi as contas) não me envolvo “sério” com alguém, no entanto, sempre que me envolvo, é intenso, é forte e inesquecível. Nos últimos meses, decidi que queria encontrar uma relação mais douradora. Deixei-me envolver por um cara que compreende o que penso, o que faço, o que sinto. Trouxe-o para minha toca. Mostrei-lhe minha matilha, meu esconderijo. Ele não soube respeitar e quando foi embora, deixou meu lugar com cara de apenas um lugar. Soube esperar no meio do mato, correndo riscos, encontrando perigo e monstros. E o mais extraordinário aconteceu. Quando eu trouxe um monstro a este “não mais meu lugar” percebi o quanto esse desrespeito me dava agora vontade de gritar: “- Ei, tá vendo. Eu enfrento e gozo com monstros, deliciosos e com língua faminta.” O que isso quer dizer, minha amiga, meu amigo, meu mostro, ou ilustre visitante curioso? Estamos todos aqui, vítimas de santos e monstros. E, às vezes, o santo te trai e somente o monstro é capaz de te mostrar a tua verdadeira capacidade e valor.

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